terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O irracionalismo do novo nacionalismo russo

Há anarquistas de esquerda e anarquistas de direita. Há feministas de esquerda e de direita. Há ativistas do movimento negro de esquerda e de direita. E assim por diante. Mas há dois movimentos que são unívocos. Todo comunista é de esquerda. Todo fascista é de direita.

Deste modo, por mais que apareceram expressões contraditórias, verdadeiros oximoros, tais como "fascismo de esquerda" e "comunistas reacionários", estes termos possuem o mesmo valor que "bola quadrada" e "silêncio barulhento". São apenas termos relativizantes e vazios usados tantos por pessoas de direita quanto por algumas pessoas na new left e progressismo pós-modernista.

Entretanto, tem ganhado força na Rússia pós-URSS um movimento autodenominado de "nacional-bolchevismo", que propõe ser uma síntese bizarra de bolchevismo e fascismo. Eles fazem uso do velho discurso de uma ideologia para além da divisão da esquerda-direita e usam como símbolo uma foice e um martelo cruzados e pretos! Perto de tantos indícios, somos tentados a concluir que as leituras e profecias que apostavam na possibilidade de parentesco entre esses dois extremos, distantes, estariam certas. Estariam certos os politicistas da teoria liberal do "totalitarismo" e a esquerda infantil que divide a esquerda entre "libertários" e "autoritários", colocando o socialismo de modelo soviético nesse último? É isso mesmo? Não, de maneira alguma.

Símbolos e autodenominações dizem respeito a algo que uma pessoa ou entidade se enxerga, mas isso não está necessariamente em ressonância com aquilo que de fato é. Há um abismo ontológico entre ser e a autopercepção - às vezes há alguma sintonia realmente, outras  não. Da mesma maneira que aquela velha questão do uso do termo "socialismo" pelos nazistas não os fizeram socialistas de fato, e nem budistas (visto que se apropriaram também da suástica usada também no budismo).

A clássica divisão entre esquerda e direita continua inabalável naquilo que representa: a perspectiva da superação e emancipação, e a perspectiva da reação, da ordem do capital. No entanto, as forças e os agentes emaranhados na conjuntura internacional pedem, muitas vezes, posicionamentos que ultrapassam a imediaticidade política. Prova disso é a própria Rússia atual. Ideologicamente conservadora (saturada da onda dita neo-eurasiana por alguns) e que representa um importante contraponto estratégico ao imperialismo euro-estadunidense, com destaque ao seu recente enfrentamento do governo golpista e neonazista da Ucrânia. Não se trata apenas do clichê de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", mas de posições críticas e pragmáticas no tabuleiro da política internacional.

O curioso, ou trágico, é que a Rússia capitalista contemporânea, tão combativa e legítima na questão ucraniana, tenha uma expressão fascista bem expressiva em suas terras - e que, se não é o mesmo fascismo da Ucrânia, não deixa de ser um tipo também. O neofascista Aleksandr Dugin é o principal ideólogo do governo Putin. E se na conjuntura política as coisas são complexas com "apoios críticos" e "repúdios", no campo teórico a fumaça da confusão se vai. 

Estes chamados "nacional-bolcheviques" são grandes críticos do americanismo, da cultura capitalista e do pós-modernismo. Ok, beleza. Mas é um daqueles casos em que o termo "pós-modernismo" é estendido para abrigar várias outras coisas e afirmar uma postura preconceituosa e de um conservadorismo religioso. Formas de machismo e homofobia inclusas. Se vai contra uma forma de irracionalismo (o pós-modernismo), utiliza outra forma de irracionalismo (e boa parte dos pós-modernistas, ao menos, são progressistas, apesar de sua filosofia burguesa-decadente ...). Para quem acha que é exagero enquadrar a ideologia dos "nacional-bolcheviques" como irracionalismo, é só olhar a salada eclética que é referência para seu teórico, Dugin: entre as mais diversas influências, consta Nietzsche, Spengler e Heidegger, uma trinca de ouros do irracionalismo reacionário.

Além disso, infelizmente, esse tipo de posição em assuntos comportamentais não se restringe a apenas a chamada Nova Direita Russa, mas também a uma parte dos comunistas, que se autodenominaram recentemente como "comunistas ortodoxos"* (e muitas vezes esses comunistas são os mais simpáticos aos neo-eurasianistas). Como foi dito no início do texto, todo comunista é de esquerda e expressões como "fascistas de esquerda" e "comunistas reacionários" são contradições em termos, bobagens sem nexo - contudo, em assuntos comportamentais, é possível e há comunistas moralistas e conservadores (se conservadorismo for apenas no sentido comportamental e não significando reacionarismo). A existência de esquerdomachos, por exemplo, não deixa mentir. 

Entretanto, por mais complexo que seja o panorama presente, isso não muda o fato de que todo comunista é de esquerda e todo fascista é de direita. E que, por outro lado, ser de esquerda, ser revolucionário, não livra necessariamente alguém de reproduzir discursos e atitudes opressivas em assuntos extraeconômicos.

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* "Comunismo ortodoxo" é como alguns comunistas têm definido sua variante no movimento comunista, em oposição às tendências da new left, adotando também um posicionamento puritano e moralista. Não tem nada a ver com o marxismo ortodoxo - este último é um nome para a postura teórico-metodológica de incorporação crítica.

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